Larissa Camacho Carvalho
Etnografia Virtual ou netnografia
na disciplina Educação de Pessoas com Necessidades Especiais do Eixo VI do curso Licenciatura em Pedagogia à Distância (PEAD) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Cantinho dos Dossiês, onde são postadas atividades e apreciações das atividades.
Aluna Adriana Marques: A aluna passa de um primeiro relato em que cita o nome do aluno com déficit para um segundo relato onde coloca apenas uma letra para identificar os alunos. A tutora indica que a aluna proceda dessa maneira e, assim, vemos no segundo relato a letra indicando o aluno.
Percebemos que, após a observação da professora da disciplina a aluna começa a cuidar a parte gramatical dos seus relatos, mas é possível perceber que as observações são voltadas para uma revisão do texto escrito pela aluna. Há repetição de palavras, erros de conjugação banais, como quando escrevemos algo muito rápido e a digitação não acompanha o pensamento e não realizamos uma leitura do texto escrito.
A última atividade realizada pela aluna está bastante elaborada. Percebe-se um avanço da modalidade escrita e dos relatos de casos. Pois se no princípio os relatos eram curtos, agora tornam-se extensos e completos, embora ainda com erros gramaticais e sem correção do texto. Aí podemos perceber uma das questões abordada por Otto Peters referente a passagem da fala e escuta para a leitura e escrita pois que na escrita as dificuldades são encontradas tendo em vista que o modelo tradicional escolar prevê a oralidade como principal instrumento de comunicação e a passagem para a modalidade escrita traz consigo dificuldades até mesmo de articulação das idéias quando as transcrevemos para o papel.
Também nessa atividade final vemos a utilização de referenciais teóricos através da citação de autores, o que indica uma apropriação da teoria em relação à prática e a articulação das idéias através da conclusão do estudo de caso. A aluna do PEAD revela uma surpresa referentemente às relações familiares de sua aluna com déficit de aprendizagem por ela pesquisada. Claro que a estrutura do estudo de caso respeita um cronograma e uma ordem pedida como requisito na disciplina, mas é nítido que há, em alguns meses, um desenvolvimento da organização e exposição das idéias aprendidas na disciplina.
Vemos que a experiência profissional da aluna a capacita a fazer relações diretas entre a teoria e a prática da educação inclusiva. Otto Peters já alertava para a continuidade das atividades profissionais dos alunos enquanto estudam na universidade à distância somente propiciada por esta modalidade de educação. E vemos que isso gera um grande enriquecimento para os alunos tendo em vista que, ao não se apartarem de suas atividades profissionais, embora o tempo seja escasso para as atividades acadêmicas, eles se envolvem com as intercalações entre a teoria e a prática potencializando-as mutuamente.
Percebemos, igualmente, que as dificuldades gramaticais da escrita não desqualificam o texto, apenas a digitação parece ser uma competência adquirida com o tempo por questões geracionais. Mas, como alerta Lévy, sendo que a virtualização da escrita e leitura podem ser consideradas um processo de passagem normal da virtualização da memória, essa potencialidade da escrita não é de estranhar-se. O interessante é que a prática da escrita e leitura virtual auxilia no desenvolvimento das mesmas.
Realizando essa netnografia pontual onde nos concentramos em um sujeito específico e numa disciplina específica foi possível perceber a relação professor-aluno no Ensino à Distância onde os encaminhamentos dados pelos professores não delimitam um caminho único a seguir, mas orientam, auxiliam os alunos na elaboração de caminhos próprios onde eles têm a oportunidade de escolherem os melhores atalhos, aqueles que lhes propiciam maior segurança ou maior liberdade dependendo das necessidades e competências, para alcançarem os objetivos educacionais almejados.
Também, realizando uma netnografia do nosso processo individual de aprendizagem na disciplina Teorias e perspectivas para a pesquisa em EAD, enquanto aluna, percebemos, empiricamente, o quão é difícil essa autonomização do aluno frente a sua própria aprendizagem, pois que mesmo fazendo parte de uma geração mais próxima de considerar-se nativo digital (tendo acesso aos computadores através de curso técnico de nível médio e possuindo um personal computer já nos anos 90) a facilidade com a internet e com os computadores restringi-se ao manejo, à instrumentalização, ao acesso e à compreensão cognitiva para as atividades em rede e para com o hardware, mas no que tange à aprendizagem muito ficou a desejar. Houve uma grande dificuldade na execução das atividades básicas, manuseio e apropriação dos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA’s) o que nos leva a considerar as bastas conquistas, ao término da disciplina, muito significativas.
A compreensão do funcionamento dos ambientes de aprendizagem, o histórico da EAD no nosso país e no mundo, as possibilidades de expansão do ensino superior, as oportunidades para os professores leigos de rincões distantes qualificarem-se através da educação à distância e os inúmeros avanços na pesquisa em EAD que possibilitam um ensino cada vez mais qualificado e competente são aquisições que muito nos marcou ao cabo dessa disciplina. Embora todas as dificuldades, a inadaptação com o tema, com os AVA’s, as aquisições foram muitas, pessoalmente.
Concluímos, assim, que uma análise netnográfica mostrou a capacidade de potencialização das aptidões inatas dos alunos, do desenvolvimento das competências propiciando um aprendizado colaborativo, mas, ao mesmo tempo, de construção individual, pessoal garantindo a autonomia dos alunos e a reflexão sobre sua prática como foi o caso da aluna Adriana e meu caso específico.
Referências:
LÉVY, Pierre. O que é virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.
Manuel Castells. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
PETERS, Otto. A educação à distância em transição: tendências e desafios. Editora Unisinos, 2004.
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